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Igreja progressista na clandestinidade.
Maria Inês Nassif *
Se Madre Cristina estivesse viva, e a ela fosse perguntado o que fariam os adeptos da Teologia da Libertação empurrados por uma igreja cada vez mais conservadora, provavelmente ela teria respondido: permaneceriam na Igreja e continuariam à esquerda da ordem instituída. Algo como se manter, pelo menos, como uma pedra no sapato daqueles que têm poder na instituição. Numa entrevista à revista "Debate & Crítica", em 1990, ela já acusava o golpe que os chamados progressistas católicos sofreram no papado de João Paulo II (1979-2003). "Este papa está sendo péssimo. Ele está conseguindo desmontar a igreja, porque tira os bispos progressistas e nomeia os reacionários". Mas, afirmou, os progressistas ficariam na mesma igreja do papa que os perseguia. "Eles (os progressistas) não querem sair (...). Querem trabalhar - vamos dizer assim, na clandestinidade. Criar um cisma não soma, divide".
Madre Cristina era um expoente da Teologia da Libertação. Doutora em Psicologia, fundadora do Instituto Sedes Sapientae, fez tudo o que fizeram outros padres e freiras da ala progressista que, entre 1964 e 1985, resistiram à ditadura militar, deram abrigo a perseguidos políticos - inclusive os envolvidos com a luta armada - e tiveram efetiva militância política, a um custo de centenas de presos e alguns mortos. Nos anos 70, no período mais sangrento do regime militar, ela fazia parte de uma das alas da Igreja que, de certa forma, já vivia no trabalho clandestino de esconder e proteger os opositores do regime. Morreu em 1997, antes que o PT chegasse ao poder. Ainda assim, dizia, na mesma entrevista, naquele início dos anos 90: o PT ainda não era PT, mas PI.
"PI é Partido da Igreja e do Intelectual. (...) O PT precisa trabalhar com esse povão. Estar ali de manhã, de tarde, de noite. Acho que está precisando disso. O PT precisa ter canais assim, para entrar mais nesse povão e ganhar mais a massa", dizia Madre Cristina.
Essa igreja progressista que resistiu à ditadura vive, e sempre viveu, as contradições da instituição religiosa e da realidade política. Em 1964, grande parte dos bispos apoiou o golpe militar, certa de que estaria, com isso, livrando-se do fantasma do comunismo.
No cenário internacional, no entanto, a igreja já vivia as contradições trazidas pelo Concílio Vaticano II (1962-1966), iniciado sob João XXIII e concluído já no papado de Paulo VI, um marco não apenas na modernização da instituição, mas um salvo conduto para a "opção preferencial pelos pobres". O papa Bento XVI, na época, era apenas o clérico Joseph Ratzinger, mas defendeu as posições da ala progressista - disse, em várias conferências, que esperava que o Concílio servisse como instrumento para que a Igreja pudesse sair "do gueto" em que se encontrava desde o século XIX e novamente se envolvesse com o mundo.
Na América Latina, a ação política no mundo laico praticamente foi impossibilitada por cruéis regimes militares. A igreja, se não consolidou um consenso em torno da Teologia da Libertação, acabou se unindo, na maioria dos países, em torno da defesa dos direitos humanos e protegendo perseguidos ou refugiados políticos. No Brasil, na medida em que se evidenciavam práticas de maus-tratos e torturas a presos políticos, os bispos foram sendo literalmente empurrados para uma posição de fazer da igreja um importante espaço de resistência. Os católicos progressistas, aproveitando a convergência, em especial do episcopado representado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disseminou, nesse período, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que conseguiram uma capilaridade que até então nenhum partido partido político havia obtido.
Bento XVI mudou, como mudaram as condições religiosas e políticas. O cardeal Joseph Ratzinger, tido como o "teórico" de João Paulo II quando responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Santo Ofício, deu uma enorme contribuição na política do Vaticano de esvaziar a Teologia da Libertação. Uma frente do combate à ideologia da opção preferencial pelos pobres foi ideológica: a Congregação censurou livros e puniu teólogos e teólogas que defenderam a ação da Igreja para os homens. Isso ficou a cargo de Ratzinger. Tratava-se, agora, de firmar a Igreja católica como profissão de fé, distante da política. Na outra frente, atuava o papa João Paulo II, que aos poucos foi recentralizando a Igreja, descentralizada depois do Vaticano II, e afastando os bispos mais progressistas de funções e áreas consideradas estratégicas na disseminação da Teologia da Libertação. D. Hélder Câmara, que havia feito um trabalho reconhecido em todo o país e teve uma atuação importante na luta contra a ditadura, foi substituído por D. José Carlos Sobrinho, que literalmente desmontou toda a estrutura que amparava o trabalho pastoral de seu antecessor em Recife e Olinda. Chegou a dissolver a Comissão de Justiça e Paz e a fechar o Instituto Teológico de Recife e o Seminário Regional do Nordeste. Em São Paulo, João Paulo II fatiou a arquidiocese para esvaziar o poder de Dom Paulo Evaristo Arns. E por aí afora. A ascensão de Ratzinger ao papado não mudou o cenário no mundo católico. A igreja instituição assume seu conservadorismo e o setor progressista resiste. E é um calo no sapato.
A militância dessa ala católica progressista entrou com todo o entusiasmo num PT que se formava, no começo dos anos 80, certa de que ele seria a síntese de uma esquerda que se dividiu intensamente na ditadura. Já se ressentiu no processo de institucionalização do partido, levada a termo no período em que o ex-deputado José Dirceu foi seu presidente. Nos últimos dois anos, em consequência das denúncias de corrupção que envolveram a direção petista, afastou-se bastante da militância partidária - embora, no governo, ainda existam ministros e assessores com formação política forjada nas Comunidades Eclesiais de Base.
As pastorais, que têm menos envolvimento partidário e mais militância social, continuam atuantes na "opção preferencial pelos pobres" - no mínimo, exercem o papel de "voz dos que não têm voz" que a Igreja exerceu na ditadura, mas agora com uma população pobre e desguarnecida de direitos. E incomodam as elites, como incomodavam no passado os militares."
* Esse artigo foi puiblicado no dia 10 de maio de 2007 por Maria Inês Nassif, editora de Opinião do jornal Valor
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